Maternidade precoce

 

    Ana Catarina tem 17 anos e foi mãe pela primeira vez há dois meses.  É casada com um homem dez anos mais velho. Este encarou a gravidez com apreensão e o nascimento do bebé como um fardo, uma vez que se encontrava desempregado quando soube da gravidez. O casal discute frequentemente desde o nascimento do filho.  

    Devido à crise financeira existente no país e à dificuldade em encontrar trabalho, o marido de Ana Catarina decidiu emigrar.  

    Ana Catarina vive longe da sua mãe e tem uma má relação com a sogra, tendo pouco apoio familiar nesta fase tão importante da sua vida. Sente-se muito sozinha e, como sempre foi introvertida, tem uma dificuldade especial em falar com os profissionais de saúde. Não se sente compreendida. 

    Vive longe do Centro de Saúde. Pensou em colocar o filho numa ama ou creche e arranjar um emprego, mas não existem tais apoios perto de sua casa. Os empregos a que tem acesso são mal remunerados. Pensou em voltar a estudar novamente. No entanto, sente uma grande pressão para ficar em casa a tomar conta do filho, por parte da mãe e da sogra.  Ambas fizeram essa opção, e consideram que Ana Catarina deverá fazer o mesmo. 

    Sente-se sempre muito cansada, não consegue dormir o suficiente, o seu bebé tem crises de choro, aparentemente sem motivo, tanto de noite como de dia. Sente-se também muito culpada porque não consegue amamentar o filho. Gostaria de receber aconselhamento, mas não sabe bem a quem o solicitar. (Fernandes, 2022)




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    Para analisar este caso considerámos a Teoria Ecológica de Bronfenbrenner, no centro está Ana Catarina que se sente culpada, incompreendida e sem rede de apoio, no entanto, possui ambições tais como voltar a estudar e arranjar um emprego bem remunerado.         

    Para um melhor entendimento do que vai ser dito posteriormente, importa dizer que a Teoria Ecológica possui cinco níveis de influência ambiental, do ambiente mais intimo (círculo mais interno) até ao mais amplo- todos dentro da dimensão "tempo". (Fernandes, 2022) Os círculos formam um conjunto de influências, como caixas que se encaixam umas nas outras, envolvendo a pessoa em desenvolvimento. Os cinco níveis de influência são o Centro (pessoa), Microssistema, Mesossistema, Exossistema, Macrossistema e Cronossistema. (Fernandes, 2022)


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Figura 1



    Através da análise percebemos que existem vários microssistemas.     Num primeiro microssistema, Ana Catarina e Marido, a não aceitação da gravidez levou a um mau estar constante na relação, o que deu origem a discussões frequentes entre o casal surgindo consequentemente diversos problemas na sua dinâmica.

    Já no microssistema Ana Catarina e a Mãe, há uma relação longínqua. Outro é o da Ana Catarina e a Sogra, onde há uma má relação interpessoal. A relação Ana Catarina e Filho consiste num microssistema onde há uma situação de desgaste e sentimento de impotência.

    Por fim, nos microssistemas relacionados com a pessoa e um ambiente exterior, Ana Catarina-Emprego e Ana Catarina- Escola, as relações são, respetivamente, poucas oportunidades sendo as que existem mal remuneradas, e o desejo de prosseguir os estudos.

    A interação entre os vários microssistemas desencadeou um sentimento de culpa. No mesossistema Ana Catarina-Mãe e Ana Catarina-Sogra, Ana Catarina sente uma enorme pressão, por parte da sogra e da mãe, para ficar em casa a tomar conta do seu filho, uma vez que, estas outrora teriam tomado essa opção, considerando que esta deveria fazer o mesmo.

    A conjuntura do mesossistema Ana Catarina- Marido e Ana Catarina- Filho, leva à anulação dos desejos, ambições e necessidades da jovem, onde por sentir necessidade de ficar com o filho leva-a a desistir do seu progresso escolar e procura de um meio de sustento. Por outro lado, o microssistema Ana Catarina- Marido leva ao sentimento de impotência pois, tal como o marido, esta acredita que deveria trabalhar. No fundo toda esta conjugação de microssistemas levam Ana Catarina a sentir diferentes emoções e tomar decisões diferentes.

    Desta forma confirma-se que as pessoas influenciam o seu próprio desenvolvimento através das suas características biológicas, psicológicas, talentos, deficiências e personalidade. (Fernandes, 2022)     Para além da influência dos Mesossistemas, no Exossistema apresenta-se a questão de Ana Catarina precisar de ajuda, querer receber aconselhamento mas não sabe a quem recorrer uma vez que no microssistema Ana Catarina- Filho existem complicações.

    Assim, não tendo culpa das relações com as instituições e estando longe do Centro de Saúde, Ana Catarina tem parte do seu desenvolvimento afetada pois existe uma influência no seu processo através de questões indiretas. O Macrossistema exerce uma grande influência no processo de desenvolvimento da Ana, desde os costumes e crenças exercidos pela sociedade, refletindo-se neste caso através da mãe e da sogra, situações socioeconômicas, pela oferta de empregos mal remunerados, e condições geográficas, pela falta de apoios. No Cronossistema de Ana são apresentadas então diversas influências que a afetam, tais como a emigração do marido, a separação da mãe, a sua instabilidade económica, o abandono escolar e o surgimento do filho.

    Todo este conjunto de fatores afetaram Ana Catarina e levaram à sua situação psicológica atual. Tal como podemos verificar, durante a avaliação de acordo com a Teoria de Ecológica de Bronfenbrenner, de nível de influência para nível de influência houve uma crescente associação de problemáticas que estiveram ligadas desde a primeira tomada de decisões de Ana, ou seja desde a sua primeira condição e consequente conjunto de relações e interações.

    Considerámos este um exemplo para um Evento não Normativo pois o casamento na idade precoce, namoro com uma pessoa mais velha e consequentemente uma gravidez na fase de vida da adolescência constituem situações incomuns nesta fase do desenvolvimento do ciclo vital.

    Segundo Erikson, Ana Catarina estaria perante a crise Identidade versus Difusão a qual resulta na virtude da Fidelidade, contudo, tal não se verifica uma vez que no seu ambiente encontra-se já bastante autónoma, com família própria e parceiro de vida. No entanto sem qualquer perspetiva de futuro profissional tendo em conta que abandonou cedo os estudos, isto indica-nos também que haverá dificuldades na resolução das próximas crises pois a evolução da sua identidade foi apressada e com algumas lacunas.




Referências:
Fernandes, H. (2022). Psicologia no Ciclo Vital I [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem].Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal. 
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Figura 1- Esquema da Teoria Ecológica de Bronfenbrenner, inspirado nos conteúdos dados pela Professora Helena Fernandes.


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